Artigo · Alimentação e hidratação

Quanto sal é demais?

Cinco gramas por dia, diz a Organização Mundial da Saúde: uma colher de chá rasa, contando tudo. Em Portugal comemos entre 7 e 11, e a maior parte não vem do saleiro. O que uma redução modesta faz à tensão arterial, onde está o sal que não se vê, e como ler um rótulo.

Health Lab · 27 de outubro de 2026 · 8 min de leitura

O número

A recomendação da Organização Mundial da Saúde para adultos é menos de 2 g de sódio por dia, o que dá menos de 5 g de sal. É uma colher de chá rasa, e conta todo o sal do dia: o que se põe a cozinhar, o que está no pão, no queijo, no fiambre, na sopa de pacote e no que se come fora. A maioria das pessoas, quando lhe perguntam, pensa no saleiro; o saleiro é a parte pequena.

Quanto comemos em Portugal

Há duas medidas, e as duas dizem o mesmo. No estudo PHYSA, da Sociedade Portuguesa de Hipertensão, mediu-se o sódio na urina de 24 horas de uma amostra representativa de adultos em 2011 e 2012, que é a forma mais fiável de saber quanto sal entrou: deu 10,7 g por dia, quase o dobro da recomendação. No Inquérito Alimentar Nacional de 2015 e 2016, feito por entrevista sobre o que se comeu, a média foi 7,4 g por dia. Os inquéritos por entrevista ficam sempre abaixo do que a urina mostra, porque ninguém se lembra de todo o sal; o valor verdadeiro estará entre os dois, e em qualquer caso acima dos 5.

Porque importa

O sal sobe a tensão arterial, e a tensão arterial é o principal factor de risco para o enfarte e o AVC. A meta-análise de Feng He e colegas, em 2013, juntou 34 ensaios em que se reduziu o sal durante pelo menos quatro semanas: com menos 4,4 g por dia, a tensão sistólica desceu em média 4,2 mmHg e a diastólica 2,1. Em pessoas com hipertensão a descida foi maior, 5,4 mmHg; em pessoas sem hipertensão foi menor, 2,4, mas não foi zero.

Descida da tensão sistólica com menos 4,4 g de sal por dia
Com hipertensão5.4 mmHgSem hipertensão2.4 mmHg
He et al. (2013): 34 ensaios, 3.230 participantes, pelo menos quatro semanas. Em mmHg. A descida é maior em quem tem hipertensão, e existe em quem não tem.

Em 2021, Tommaso Filippini e colegas juntaram 85 ensaios numa análise de dose e resposta e encontraram uma relação quase em linha recta: a cada grama de sódio a menos, a tensão desce um pouco, em toda a gama de consumo, sem um patamar abaixo do qual deixe de contar. À escala do mundo, Dariush Mozaffarian e colegas estimaram em 2014 que 1,65 milhões de mortes cardiovasculares por ano se deviam a consumos de sódio acima dos 2 g. E nas estimativas do Global Burden of Disease para 2017, o excesso de sódio foi o factor alimentar com mais peso nas mortes atribuíveis à alimentação, à frente da falta de cereais integrais e de fruta. São números de população, não de uma pessoa; dizem a direção, não o que acontece a cada um.

Onde está o sal que não se vê

Em Portugal, o alimento que mais sal traz à mesa é o pão, não por ter muito, mas por se comer muito. A lei de 2009 fixou o máximo em 1,4 g de sal por 100 g de pão cozido; uma carcaça de 50 g pode ter 0,7 g, e duas ao pequeno-almoço são mais de um quarto do dia. Depois vêm os enchidos e o fiambre, os queijos, as sopas e os caldos de pacote, os molhos, as bolachas salgadas, as conservas e as refeições prontas. E tudo o que se come fora de casa, onde não se vê o que foi posto.

O sal que se põe a cozinhar e à mesa é, na maior parte das casas, a fração menor. É por isso que "tirar o saleiro" muda pouco, e trocar o que se compra muda muito.

Como ler um rótulo

  • Sal, não sódio. Os rótulos na União Europeia dizem "sal" por 100 g. Se encontrar um rótulo em sódio, multiplique por 2,5: 1 g de sódio são 2,5 g de sal.
  • Por 100 g, para comparar; por porção, para contar. A coluna dos 100 g serve para comparar dois produtos; a da porção serve para somar o dia.
  • Uma regra de bolso: até 0,3 g de sal por 100 g é pouco; acima de 1,5 g por 100 g é muito. Entre os dois, depende da quantidade que come.
  • Os alimentos sem rótulo (o pão da padaria, o queijo ao balcão, a refeição do restaurante) são os que mais surpreendem. Perguntar não custa.

O que fazer

  1. Começar pelo que se compra. Trocar o fiambre e os enchidos de todos os dias por alternativas com menos sal, ou por menos vezes; escolher o pão com menos sal quando há escolha; ler o rótulo das sopas, molhos e bolachas.
  2. Cozinhar com metade e compensar com ervas, alho, limão, especiarias e pimenta. Nos ensaios de He e colegas, as reduções duraram quatro semanas ou mais; é o tempo que o paladar leva a reajustar-se.
  3. Provar antes de salgar. O gesto automático do saleiro é o mais fácil de tirar.
  4. Contar o dia uma vez, com rótulos e uma colher de medida, só para ver onde está o sal. Uma vez chega para mudar o que se compra.
  5. Fruta e legumes todos os dias. Trazem potássio, que trabalha no sentido contrário do sódio, e ocupam no prato o lugar do que tem mais sal.

Quem tem hipertensão, doença renal ou toma medicação para a tensão beneficia mais de reduzir o sal, e deve falar disso na consulta, com os valores da sua tensão à frente. A página da alimentação diz o que se pergunta e o que se mede; o que fazer com os seus números é conversa para lá.

Perguntas frequentes

O que costumam perguntar

O número
Se não tenho tensão alta, o sal interessa-me?

Sim, menos do que a quem a tem, mas interessa. Na meta-análise de ensaios de He et al. (2013), reduzir cerca de 4,4 g de sal por dia baixou a tensão sistólica 2,4 mmHg em pessoas sem hipertensão e 5,4 mmHg em pessoas com hipertensão. Filippini et al. (2021) encontraram uma relação quase linear em toda a gama de consumo, sem um patamar abaixo do qual deixe de contar.

Quanto sal tem um pão?

Por lei, no máximo 1,4 g por 100 g de pão cozido (Lei n.º 75/2009). Uma carcaça de 50 g pode ter até 0,7 g; duas ao pequeno-almoço são mais de um quarto dos 5 g do dia. O pão é dos alimentos que mais sal traz à mesa portuguesa, pelo tanto que se come.

Na prática
Como converto sódio em sal?

Multiplica-se por 2,5: 1 g de sódio são 2,5 g de sal. Os 2 g de sódio por dia da OMS são os 5 g de sal. Nos rótulos portugueses o valor já vem em sal; num rótulo em sódio, a conta é essa.

O sal marinho ou dos Himalaias é melhor?

Para a tensão arterial, não: é cloreto de sódio na mesma, e os minerais que o acompanham estão em quantidades vestigiais. O que conta é a quantidade de sódio, venha de onde vier.

Referências (8)
  1. World Health Organization. Guideline: Sodium intake for adults and children. Geneva: WHO; 2012. www.who.int/publications/i/item/9789241504836
  2. Polonia J, Martins L, Pinto F, Nazare J. Prevalence, awareness, treatment and control of hypertension and salt intake in Portugal: changes over a decade. The PHYSA study. J Hypertens. 2014;32(6):1211-1221. doi:10.1097/HJH.0000000000000162
  3. Lopes C, et al. Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física, IAN-AF 2015-2016: relatório de resultados. Universidade do Porto; 2017. ian-af.up.pt/sites/default/files/IAN-AF%20Relat%C3%B3rio%20Resultados_0.pdf
  4. Lei n.º 75/2009, de 12 de agosto. Estabelece normas com vista à redução do teor de sal no pão. Diário da República. diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/75-2009-493513
  5. He FJ, Li J, Macgregor GA. Effect of longer term modest salt reduction on blood pressure: Cochrane systematic review and meta-analysis of randomised trials. BMJ. 2013;346:f1325. doi:10.1136/bmj.f1325
  6. Filippini T, et al. Blood pressure effects of sodium reduction: dose-response meta-analysis of experimental studies. Circulation. 2021;143(16):1542-1567. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.120.050371
  7. Mozaffarian D, et al. Global sodium consumption and death from cardiovascular causes. N Engl J Med. 2014;371(7):624-634. doi:10.1056/NEJMoa1304127
  8. GBD 2017 Diet Collaborators. Health effects of dietary risks in 195 countries, 1990-2017. Lancet. 2019;393(10184):1958-1972. doi:10.1016/S0140-6736(19)30041-8

As referências descrevem resultados observados em populações. Não determinam o que acontece a cada pessoa. A interpretação individual pertence ao profissional de saúde.

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