Artigo · Movimento e atividade física

Quantos passos por dia fazem diferença?

Os 10 mil passos por dia estão em todos os relógios e em quase todas as conversas sobre andar. O número não veio de um estudo. Os estudos vieram depois, e dizem outra coisa: o risco desce muito antes dos 10 mil, e a partir de certo ponto deixa de descer.

Health Lab · 27 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

De onde vêm os 10 mil passos

Em 1965, a Yamasa, uma fabricante japonesa de relógios, lançou um pedómetro chamado Manpo-kei, que se traduz por "medidor de dez mil passos". O nome era o produto e o slogan, numa altura em que o Japão vivia o entusiasmo dos Jogos Olímpicos de Tóquio de 1964. Quando Catrine Tudor-Locke e David Bassett reviram, em 2004, a evidência sobre passos por dia, seguiram o rasto dos 10 mil até aos clubes de caminhada japoneses e a esse slogan comercial de trinta anos antes, e concluíram que o número era uma estimativa razoável para adultos saudáveis, sem um estudo por trás.

Durante os quarenta anos seguintes o número viveu de ser redondo e fácil de lembrar. Só a partir de 2019, com acelerómetros no pulso de dezenas de milhares de pessoas seguidas durante anos, passou a haver dados para lhe perguntar se era verdade.

O que os estudos mostram

O primeiro estudo a fazer a pergunta com acelerómetros foi o de I-Min Lee e colegas, publicado em 2019: 16.741 mulheres americanas com uma média de 72 anos, seguidas durante cerca de quatro anos. Quem dava à volta de 4.400 passos por dia tinha um risco de morte claramente mais baixo do que quem dava 2.700. O risco continuava a descer com mais passos até perto dos 7.500 por dia, e a partir daí estabilizava. Os 10 mil não acrescentavam nada que se visse.

Risco de morte por qualquer causa, conforme os passos por dia
0,000,300,600,901,201,002.7180,594.3630,545.9050,428.442risco relativo (grupo que menos anda = 1)
Lee et al. (2019): 16.741 mulheres com cerca de 72 anos, divididas em quatro grupos pelos passos por dia (a mediana de cada grupo no eixo). O grupo que menos andava é a referência (1,0). O risco desce logo do primeiro para o segundo grupo e continua a descer, mais devagar, até ao quarto.

No ano seguinte, Pedro Saint-Maurice e colegas fizeram a mesma pergunta a 4.840 adultos americanos com 40 ou mais anos, homens e mulheres, seguidos durante dez anos. Em comparação com 4 mil passos por dia, 8 mil estiveram associados a cerca de metade do risco de morte, e 12 mil a cerca de um terço. A intensidade dos passos, depois de se descontar o total, não fez diferença.

Em 2022, Amanda Paluch e colegas juntaram 15 coortes de quatro continentes, com mais de 47 mil adultos, na meta-análise que está na página do pilar. O risco desce com os passos até cerca de 6 a 8 mil por dia a partir dos 60 anos, e 8 a 10 mil antes dessa idade. Depois desses valores, a curva achata. No mesmo ano, Borja del Pozo Cruz e colegas olharam para 78.500 pessoas do UK Biobank e viram o mesmo desenho até cerca de 10 mil passos, com uma nuance: um ritmo mais vivo nos 30 minutos mais rápidos do dia trouxe alguma redução adicional, sobretudo na doença cardiovascular e no cancro que aparecem de novo.

Então, quantos?

A resposta honesta tem três partes.

  • O maior ganho está no princípio. Passar de 3 ou 4 mil passos para 6 ou 7 mil é onde o risco mais desce, em todos os estudos. É também o passo mais fácil de dar: uma caminhada a mais por dia.
  • A curva achata entre os 7 e os 10 mil. A partir dos 60 anos, mais cedo; antes, mais tarde. Não há um limiar mágico, e nenhum estudo encontrou um ponto a partir do qual andar mais faça mal.
  • O ritmo é o acrescento, não a base. Primeiro o total; depois, se quiser, uma parte do dia a passo decidido.

A Organização Mundial da Saúde não fala em passos. Fala em 150 a 300 minutos de atividade moderada por semana, mais força duas vezes por semana. As duas linguagens dizem o mesmo: em estudos de cadência, 30 minutos de caminhada a passo decidido dão cerca de 3 a 3,5 mil passos, e meia hora por dia a esse ritmo, somada ao que se anda sem pensar, leva a maioria das pessoas à zona em que a curva achata.

O que isto não diz

Todos estes estudos são observacionais: medem os passos de quem já anda e seguem o que lhes acontece. Quem anda mais é, em média, mais saudável à partida, e os investigadores descontam o que conseguem, como a idade, o tabaco, o peso e a doença que já existia, mas nunca tudo. A direção do efeito é consistente em todos os países e idades, e é por isso que se leva a sério; o tamanho exato do ganho de cada pessoa ninguém o sabe.

Também não dizem o que se passa consigo. A página do movimento mostra a curva de Paluch e deixa-o pôr o seu número nela, sem veredito: a leitura do seu caso, com o resto do contexto, é a conversa da consulta.

Como começar sem obsessão

  1. Uma semana a contar, sem mudar nada. O telemóvel no bolso chega. É o ponto de partida, e evita começar por uma meta que não é a sua.
  2. Mais mil do que a semana anterior. Tudor-Locke e Bassett sugeriam, já em 2004, metas por degraus a partir do que cada pessoa faz, em vez de um número igual para todos. Mil passos são cerca de dez minutos a andar.
  3. Trocar o "não tenho tempo" por pedaços. Os passos contam todos: a chamada a andar, o autocarro uma paragem antes, as escadas. Nos estudos, os passos "incidentais" valem tanto para o total como os de uma caminhada marcada.
  4. Quando o total estiver, um pedaço mais rápido. Dez ou quinze minutos a um ritmo em que ainda consegue falar mas não cantar. É o acrescento de del Pozo Cruz.
  5. Olhar para a semana, não para o dia. Um dia abaixo não desfaz nada; a média é que conta.
Perguntas frequentes

O que costumam perguntar

O número
Os 10 mil passos são um número científico?

Não. Tudor-Locke e Bassett (2004) seguiram-lhe o rasto até aos clubes de caminhada japoneses e a um slogan comercial dos anos 60: o pedómetro Manpo-kei, "medidor de dez mil passos", lançado em 1965. Os estudos com acelerómetros vieram depois e mostram que o risco desce bem antes dos 10 mil.

A partir de que idade bastam menos passos?

Na meta-análise de 15 coortes de Paluch et al. (2022), o risco de morte deixa de descer por volta dos 6 a 8 mil passos por dia a partir dos 60 anos, e dos 8 a 10 mil antes disso. Em mulheres com cerca de 72 anos, Lee et al. (2019) viram o risco descer até perto dos 7.500 e estabilizar depois.

Na prática
Vale mais andar depressa ou andar mais?

Primeiro, andar mais. Em Lee et al. (2019) e em Saint-Maurice et al. (2020), a intensidade deixou de contar depois de se descontar o total de passos. Em del Pozo Cruz et al. (2022), um ritmo mais vivo trouxe alguma redução adicional, sobretudo na doença que aparece de novo. O total é a base; o ritmo é o acrescento.

Dou 3 mil passos por dia. Por onde começo?

É aí que o ganho é maior: em Saint-Maurice et al. (2020), passar de 4 mil para 8 mil passos por dia esteve associado a cerca de metade do risco de morte. Tudor-Locke e Bassett (2004) sugerem metas por degraus a partir do que a pessoa já faz, em vez de um número universal. Uma semana a contar sem mudar nada dá o ponto de partida.

Referências (7)
  1. Tudor-Locke C, Bassett DR. How many steps/day are enough? Preliminary pedometer indices for public health. Sports Med. 2004;34(1):1-8. doi:10.2165/00007256-200434010-00001
  2. Lee IM, et al. Association of step volume and intensity with all-cause mortality in older women. JAMA Intern Med. 2019;179(8):1105-1112. doi:10.1001/jamainternmed.2019.0899
  3. Saint-Maurice PF, et al. Association of daily step count and step intensity with mortality among US adults. JAMA. 2020;323(12):1151-1160. doi:10.1001/jama.2020.1382
  4. Paluch AE, et al. Daily steps and all-cause mortality: a meta-analysis of 15 international cohorts. Lancet Public Health. 2022;7(3):e219-e228. doi:10.1016/S2468-2667(21)00302-9
  5. Del Pozo Cruz B, Ahmadi MN, Lee IM, Stamatakis E. Prospective associations of daily step counts and intensity with cancer and cardiovascular disease incidence and mortality and all-cause mortality. JAMA Intern Med. 2022;182(11):1139-1148. doi:10.1001/jamainternmed.2022.4000
  6. Bull FC, et al. World Health Organization 2020 guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Br J Sports Med. 2020;54(24):1451-1462. doi:10.1136/bjsports-2020-102955
  7. Tudor-Locke C, et al. How many steps/day are enough? For children and adolescents. Int J Behav Nutr Phys Act. 2011;8:78. doi:10.1186/1479-5868-8-78

As referências descrevem resultados observados em populações. Não determinam o que acontece a cada pessoa. A interpretação individual pertence ao profissional de saúde.

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